segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O dinheiro traz felicidade?

Pesquisas indicam que o aumento da renda traz satisfação pessoal somente até certo ponto. A fortuna pode aumentar o seu grau de realização com a vida, mas também pode levá-lo à porta do inferno

Por Ana Clara Costa e Milton Gamez

A felicidade estagnou nos EUA

"Nunca vi muito dinheiro trazer felicidade pra ninguém", escreveu o poeta Vinicius de Moraes. Péssimo na gestão de suas finanças, o diplomata e poeta alcançou a fama, mas não acumulou a fortuna obtida com seus versos. Afinal, de que adiantava ser rico, se o que importava mesmo para Vinicius era estar em um estado constante de paixão? A busca da felicidade é missão árdua quando se tem contas a pagar e não há dinheiro suficiente, ou quando a rotina profissional é estressante e trabalhar se torna um martírio diário. Diante da frustração de não poder ter a vida desejada, muitos certamente já disseram: "Se eu tivesse mais dinheiro, seria bem mais feliz." Seria mesmo?


FABIANO CERCHIARI

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O ESTUDIOSO: o consumismo perturba o economista Eduardo Giannetti

O paulistano Roberto Arboleda, 52 anos, achava que sim. Em 2003, depois de encerrar a carreira como gerente de serviços técnicos numa empresa multinacional, ele montou o negócio próprio para continuar trabalhando, ficar rico e curtir mais a vida. Com a esposa e um casal de sócios, abriu um bar em São Paulo, a Casa do Espeto. Um cardápio simples, com espetinhos grelhados e bebidas, num ambiente bucólico e num bairro cada vez mais badalado - a Pompéia - foi a receita para o sucesso. Os sócios ganharam dinheiro como nunca. E quiseram mais. Abriram três novas filiais, contrataram mais de 100 funcionários e fizeram planos para a quinta casa. Ao contrário do que pensava, a fartura financeira não trouxe a felicidade que Arboleda imaginava. "Achava que precisava de muito dinheiro para ter qualidade de vida. Não é bem assim", diz. Estressado de tanto trabalhar dia, noite e fins de semana, o empresário engordou dez quilos. Não tinha tempo para a família e os amigos, tampouco conseguia usufruir da riqueza obtida. Viajar, nem pensar. Comprou um carro zero-quilômetro, mas só usava para ir ao trabalho. As sobras das elevadas retiradas mensais eram aplicadas no banco. Em sessões de análise semanais, ele lamentava os problemas diários e a infelicidade que acompanhava o dinheiro: "O custo da fortuna é muito alto." Ele deixou a sociedade no final de 2005 (a esposa já tinha saído) e abriu o Bar do Parque, sem sócios e com poucos funcionários. "Ficar rico prá quê? E seu tivesse um infarto? Dessa vida nada se leva", justifica.

RENATO VELASCO

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POBRE E FELIZ: o sonho da vendedora Lígia Vasconcelos não tem preço

Se morasse nos Estados Unidos, ele seria classificado como mais uma vítima da "síndrome da riqueza repentina", que aflige muitos novos ricos. Sim, é verdade: dinheiro demais nem sempre ajuda e, muitas vezes, atrapalha a busca da felicidade. Mas quando a alegria financeira se transforma em tristeza existencial? Os economistas descobriram que a felicidade da população - que eles chamam de bem estar subjetivo - só aumenta até uma determinada faixa de renda. Depois, o país pode ficar até mais rico, mas seus habitantes não se consideram mais felizes. "Até uma renda per capita de US$ 10 mil por ano, a relação entre dinheiro e felicidade é forte. Acima desse nível, fica mais tênue", diz Eduardo Giannetti, autor de Felicidade (Companhia das Letras).

Nos Estados Unidos, as pesquisas indicam um acréscimo de felicidade até a faixa de renda de US$ 20 mil por ano, em média. Depois, ela estaciona e só volta a subir quando a renda ultrapassa US$ 80 mil por ano. Explica-se: na base da pirâmide, as pessoas ficam muito felizes quando conseguem dinheiro suficiente para satisfazer seus desejos elementares. No topo, elas têm recursos para comprar o que querem, ou quase. "Acima de US$ 80 mil, o cidadão é vitorioso e venceu a corrida armamentista do consumo", diz Giannetti. "Nesse sentido, dinheiro traz felicidade." No Brasil, os números indicam fenômeno semelhante. A renda per capita média é menor (R$ 12.436 anuais, ou US$ 6.500) e a concentração de renda, maior. Mesmo sofrendo com serviços básicos precários (moradia, educação, saúde e alimentação), o brasileiro ainda se considera feliz. Segundo pesquisa feita pelo IBOPE em 2006, 55% dos brasileiros, em média, estão muito satisfeitos com seu estilo de vida. No topo da pirâmide social (classes A e B), o índice de satisfação é mais alto: 59%. Na base (D e E), é de 54%. No meio (C), a satisfação é menor: 52%. A classe média, como nos Estados Unidos, é menos feliz.

CLAUDIO GATTI

''O custo da fortuna é muito alto. Ficar rico pra quê? Dessa vida, nada se leva"

RICO E INFELIZ: Além de dinheiro, o empresário Arboleda ganhou estresse

Na faixa de renda intermediária, muitas pessoas são infelizes porque dão mais valor aos bens que não possuem e conferem status social, como uma Ferrari. A lista dos chamados bens posicionais está sempre sendo recriada - tome-se o iPhone, da Apple, o mais novo ícone de consumo. Quem ainda não o possui sente-se infeliz, mesmo que tenha dinheiro. "É um fenômeno perturbador", afirma Giannetti. Quando aliada à realização de desejos materiais, a felicidade é algo matematicamente inalcançável, diz o economista Otto Nogami, do Ibmec-São Paulo. "Por maior que seja a sua capacidade de consumir, sempre haverá novos desejos, pois desejos são infinitos. E qualquer número dividido por infinito, dá zero", explica. Como sair dessa armadilha? "A sociedade atual precisa repensar os seus valores", aconselha Giannetti.

Aos 60 anos, a dona-de-casa de Niterói (RJ), Lígia Vasconcelos, é exemplo de que a felicidade pode existir, mesmo quando o dinheiro é escasso. Abandonada pelo marido, ela caiu em depressão e viveu o alcoolismo. Deu a volta por cima com a ajuda dos filhos e do neto. Hoje, ganha R$ 300 reais por mês vendendo produtos de beleza em domicílio. A vida simples não é sinônimo de tristeza. Lígia cursa a terceira série em um programa de educação para adultos e se considera uma pessoa muito feliz. Já consegue fazer pequenas contas e formar frases. Seu maior desejo? Nada que o dinheiro possa comprar. "O que eu mais quero nessa vida é conseguir escrever um diário", revela, orgulhosa.

Fonte: http://www.terra.com.br/istoedinheiro/edicoes/511/artigo55186-2.htm

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